Há uma contradição silenciosa e conveniente que sustenta boa parte da vida pública: o povo reivindica o poder de escolher, mas recusa, quase sempre, o ônus de responder por aquilo que escolheu.
Entre a altura da águia, símbolo da razão vigilante, da lucidez que enxerga de cima, e o chão onde a Geni é construída para ser julgada, há um espaço incômodo. É nesse intervalo que a vida pública acontece.
De um lado, a dramaturgia ácida de Chico Buarque, onde a multidão apedreja durante o dia e suplica durante a noite. De outro, quase como a própria águia em voo, a racionalidade severa de Ruy Barbosa, a lembrar que não há inocência possível onde há tolerância.
Afinal, de quem é a responsabilidade: de quem dirige ou de quem escolhe?
Governar é, em alguma medida, tentar materializar expectativas que já nascem desproporcionais à realidade. Escolher, por sua vez, é um ato mais sofisticado do que parece: não é apenas exercer um direito, é projetar um futuro possível dentro de limites quase sempre ignorados por quem escolhe.
Mas o que se observa não é ignorância. É algo mais refinado e, por isso, mais inquietante: conveniência.
Basta observar o ciclo recente da política brasileira. Elege se com esperança. Cobra-se com urgência. E, antes mesmo que os resultados estruturais possam surgir, já se constrói a narrativa do fracasso. O mesmo eleitor que legitima é, pouco depois, o primeiro a negar a própria escolha.
Quando convém, celebra se. Quando frustra, descarta-se. Troca-se. E troca se de novo. Sem memória. Sem lastro. Sem responsabilidade histórica.
Há nisso um traço inequívoco de hedonismo cívico.
O imediato se impõe ao estrutural. O desejo se sobrepõe à consequência. E o coletivo, quando não serve ao indivíduo, torna-se irrelevante.
Como na metáfora que ecoa na cultura brasileira, constrói-se a figura que deve ser julgada. Apedreja-se com convicção. E, diante da ameaça, recorre-se à mesma figura com urgência. Não por mudança de consciência, mas por necessidade.
E aqui reside o ponto central que a águia enxerga, mas que o homem comum prefere não ver: a pedra nunca surge do nada. Ela é escolhida, erguida e lançada.
Nesse movimento, o culpado é sempre externo. A falha é sempre do outro. A responsabilidade, nunca compartilhada.
Nunca fui eu que escolhi mal. Nunca fui eu que legitimei o erro. Nunca fui eu que me ausentei depois do voto. Eu apenas exerci um direito. Como se isso não implicasse dever algum.
Mas a razão, quando convocada, é menos complacente. Como já advertia Ruy Barbosa, não há como dissociar os efeitos das escolhas daqueles que as tornam possíveis.
Ainda assim, transferir é mais confortável do que assumir.
“Eles não sabem governar.” “Eles não me representam.” “Eles só querem o poder.”
E eu? Eu só queria o que podia. Eu só tenho um título de eleitor. Eu influencio pouco.
Talvez seja essa a construção mais sofisticada da ilusão contemporânea: a crença de que pequenas decisões individuais não produzem consequências coletivas relevantes.
No fim, não há ruptura. Há continuidade.
Entre a águia que observa e a Geni que é julgada, a pedra não desaparece.
Ela apenas muda de mão.
E nela, a pergunta permanece, não como provocação simples, mas como inquietação estrutural:
Quem, afinal, sustenta a pedra?
*Robson Wagner é CEO da W4 Comunicação
Foto: Divulgação
Reprodução texto, site: bahianotícias.com.br
















