Tem coisas que só o futebol explica. E, às vezes, nem ele consegue. Porque o jogo muda rápido. O humor muda rápido. A arquibancada muda rápido. Como diz o grande comunicador Mário Freitas: “a vida muda de minuto a minuto”. No futebol, então, muda de lance a lance.
Pouco mais de um mês atrás, o nome de Jair Ventura parecia condenado no Vitória. A torcida já não tinha paciência. Teve nota de organizada, protesto, pressão e pedido de demissão. Chamaram o treinador de “incapaz”, disseram que o time não evoluía e que o caminho era sem saída. O ambiente era pesado. Cada coletiva parecia despedida anunciada.
E convenhamos: não faltavam motivos para a desconfiança. O Vitória oscilava, tropeçava e dava sinais de um time sem identidade. A sensação era de que o roteiro já estava escrito. Só esqueceram de avisar ao futebol que ele odeia lógica pronta.
Porque eis que chega o Flamengo. Um elenco milionário, favorito, cheio de estrelas e tratado por muitos como praticamente classificado antes mesmo da bola rolar. Do outro lado, um Vitória pressionado, desacreditado, com um elenco limitado e jogando contra tudo: o adversário, o ambiente e a própria desconfiança.
Mas o futebol gosta dessas ironias…
O mesmo técnico chamado de incapaz agora aparece como símbolo de resistência. O mesmo elenco questionado virou exemplo de entrega. O Barradão, que antes protestava, passou a empurrar. E a classificação que parecia impossível aconteceu. Daquelas noites que mudam o rumo da conversa no bar, no grupo de WhatsApp e até na mesa dos comentaristas.
Não faz muito tempo que pediam a cabeça de Jair Ventura. Hoje, muita gente já fala em “time organizado”, “estratégia perfeita” e “espírito de luta”. O futebol é cruel com quem perde, mas também distribui redenção numa velocidade impressionante.
Talvez o maior charme desse esporte seja justamente esse: ninguém controla completamente o imponderável. Um mês pode transformar vilão em herói. Uma classificação pode apagar semanas de crise. E um treinador pressionado pode terminar a noite ovacionado.
Agora fica a dúvida no ar: quem vai pedir desculpas ao professor Jair Ventura?
Flávio Gomes é jornalista e colaborador do Em Cima do Lance
Foto: Victor Ferreira Vitória
















