Como o menino Dente de Leite virou um grande jornalista

Já contei em Fragmentos, um dos cinco livros que já escrevi em minha vida, que comecei no jornalismo com 14 anos. Era foca da equipe de esportes do Jornal da Bahia comandada por Carlos Libório, que tinha ainda Geraldo Lemos, Luiz Carlos Alcoforado, Mário Freitas e José Carlos Mesquita.

 

Na redação do JBa tive a oportunidade de trabalhar com João Carlos Teixeira Gomes, Emiliano José, Rafael Pastore Neto, Lucia Cerqueira, Mariluce Moura, Milton Borges, Gustavo Tapioca, Marcelo Simões, Moacir Nery, Moacir Ribeiro, João Bosco, Fernando Vita, Carlos Navarro e outros grandes nomes do jornalismo baiano que passaram por lá.
Repito, o JBa foi a grande escola de minha vida. Lembro-me até hoje do primeiro dia de trabalho, quando me apresentei a Carlos Libório. Ele me deu a ‘caixinha’, dinheiro do transporte utilizado na Redação, e me mandou cobrir o treino do Galícia, na Vila Militar dos Dendezeiros.

 

“Vá lá, e traga tudo de notícia que acontecer no treino” – foi à única coisa que Libório me disse.

 

Como sempre fui apaixonado por futebol, ia sempre à Fonte Nova e não perdia uma resenha esportiva, sabia mais ou menos o que fazer.

 

No dia seguinte sai cedo de casa, na Pituba, e peguei dois ônibus: um para o Campo Grande e outro Campo Grande/Madragoa, que passava pelos Dendezeiros.

 

Quando cheguei lá, tive problemas para entrar na Vila Militar. Pediram a carteira de identidade, e quando o soldado que estava controlando a entrada viu que eu era menor de idade, queria saber o que ia fazer. Ele não acreditou que eu estava ali como repórter e pensou que eu era um torcedor querendo enganá-lo para assistir ao treinamento da equipe.

 

Depois de muita conversa, o cara foi consultar um sargento que comandava a guarda e acabou me liberando. E lá ia eu para o meu grande teste como jornalista.

 

Para minha sorte, não era só treino do Galícia. O técnico de futebol Raul Bittencourt, uruguaio, havia combinado um jogo-treino com o Botafogo do técnico paraguaio Modesto Bria.

 

E jogava no Botafogo o lateral-direito Cacau, um amigo que morava perto da minha casa e me conhecia desde que nasci.

 

Todo feliz por eu estar começando na crônica esportiva, ele terminou conversando muito comigo. Me apresentou aos outros jogadores e deu a maior força na minha estreia profissional.

 

Do lado do Galícia, conheci craques como Valtinho, Carlinhos Gonçalves, Josias, Quinha, Nelson Leal, sem falar em Enaldo e Nelinho (veteranos na época, mas que batiam um bolão).

 

No Botafogo, tinha Lapinha, Guido, Telê e Luiz Alberto. Nesse mesmo dia conheci logo o senhor Wilson Ferreira (o maior dirigente que o futebol baiano teve). Seu Wilson, como era chamado o diretor de futebol do Botafogo, não perdia um treino.

 

Anotei tudo que aconteceu no jogo-treino. As escalações, os gols, se alguém machucado etc. Procurei até saber do time que jogaria no domingo no Campo da Graça (a Fonte Nova estava em reforma).

 

Cheguei à redação no final da manhã e fui para a máquina de datilografia Olivetti, ‘catar milho’. Isso mesmo: ‘catar milho’. Naquele tempo, quem não era rápido na datilografia, era apelidado de ‘catador de milho’.

 

Quando Luiz Carlos Alcoforado chegou à redação, foi logo procurando o material. Era o redator e subeditor da equipe. Reescrevia todo o material trazido pelos repórteres de esportes das coberturas de rua.

 

Eu tinha feito uma espécie de relatório de tudo que aconteceu no treino. Ele me disse para sentar ao seu lado e começou a reescrever o texto. E como grande mestre que sempre foi, me mandou ler a matéria pronta.

 

Fiquei superfeliz. Primeiro porque mesmo que o texto fosse totalmente diferente daquilo que eu havia escrito, continha as informações que coloquei no relatório. Nesse momento, soube que estava no caminho certo. No final de tudo, aconteceu o que eu mais esperava. Luiz Carlos virou pra mim e disse: “Você dá pra coisa! Siga em frente que você dará um grande jornalista”.

Depois disso, passei sempre a sentar do lado dele. Queria saber a sua opinião sobre tudo o que produzia. Às vezes, quando o treino era à tarde, Luiz já me mandava sentar ao seu lado e ir contando tudo, porque tinha horário de fechar a página e o jornal não podia atrasar na distribuição.

 

Até hoje, me lembro com saudade dos mestres Libório, Geraldo Lemos e Luiz Carlos Alcoforado, que me deram dicas importantes no meu início precoce no jornalismo esportivo.
Não posso esquecer também de Mário Freitas e José Carlos Mesquita, que na época eram repórteres com mais experiência e também me ajudaram bastante.

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