O dia em que comprei todos os produtos de uma jovem na praia de Porto Seguro

Década de 90, fui com Martinho Lélis, comentarista, e Renato Lavigne, repórter, cobrir um jogo em Porto Seguro, para a Rádio Excelsior. Era a reinauguração do Estádio Antônio Carlos Magalhães, que a partir daquela partida voltaria a ter iluminação, possibilitando a realização de eventos noturnos.

Como Porto Seguro é sempre um lugar atraente, decidimos antecipar a nossa ida. Desta forma, pegamos um avião da extinta Nordeste Linhas Aéreas e chegamos desde a sexta-feira. Aliás, uma ótima viagem pelo também extinto Bandeirantes, que era utilizado em linhas de média ou curta distância.

No sábado fomos a uma das lindas praias da cidade. Lembro que sentamos numa barraca, estávamos tomando cerveja e água de côco, quando de repente aparece uma garota vendendo pasteis. Convidamos ela para tomar uma cervejinha, ela disse que não podia. Mas aceitou tomar um refrigerante.

Lembro bem do nome dela: Natália. E ela disse que estava vendendo os produtos para uma senhora chamada Angelina. Nisso, ela começou a contar a sua história de vida.

Falou que era de Eunápolis, ficou grávida aos 13 anos (estava com 22) e os seus pais não aceitaram que ele fosse mãe tão cedo. E acabou sendo expulsa de sua casa. E Natália nos conquistou pela seus gestos simples e educados. De repente, ela falou que tinha de ir, para continuar vendendo os produtos, porque tinha de dar satisfação à senhora para a qual ela estava vendendo. De repente, eu perguntei.

– Você tem que vender quantos?

– Todos. Ela respondeu.

Analisei, pensei e fiz outra pergunta.

– Quantos pasteis você tem aí?

Ela contou e respondeu. Não lembro exatamente quantos existiam. Creio que em torno de mais ou menos 100 reais, em dinheiro de hoje.

– Pronto. Fique aí. Vou comprar todos.

E a Natália ficou conversando com a gente. Batemos papo, fizemos uma boa amizade. A história dela nos sensibilizou. Nos vimos em outras idas a Porto Seguro. Natália continuava vendendo produtos nas praias de Porto Seguro. Depois perdemos o contato com ela.

Aquele foi um dia em que conhecemos uma pessoa fantástica e que podemos ajudar um ser humano nesta difícil luta contra a sobrevivência no dia a dia desta vida tão conturbada. Principalmente, para aquelas que não nasceram em berços de ouro ou não tiveram pais compreensivos, para admitir uma gravidez precoce.

Marão Freitas

 

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