O VAR que precisa de um VAR

No Brasil, o futebol não é só paixão. É também uma montanha-russa de polêmicas e, claro, interpretações — principalmente quando entra em campo o tal do VAR. O árbitro de vídeo chegou prometendo justiça, transparência e tecnologia a favor do jogo. Mas, por aqui, parece que ele veio para confundir mais do que esclarecer.

Neste sábado, no empate entre Bahia e Fortaleza, tivemos mais um exemplo para a galeria de horrores. Cauly invadiu a área, foi claramente desequilibrado e derrubado. A torcida tricolor esperava apenas o protocolo: checagem, revisão e a marcação do pênalti. Mas o VAR, esse ser mudo e omisso, simplesmente ignorou o lance. Nada de chamado. Nada de revisão. Nada de justiça. Apenas o silêncio constrangedor de quem está sentado em frente a uma tela, mas parece assistir à reprise de uma novela.

E é aí que a ironia entra com força: criamos o árbitro que vê tudo… menos o que importa. Temos a tecnologia, mas parece faltar alguém que saiba apertar o botão certo. Em vez de solução, virou mais um problema. O VAR no Brasil é um fiscal de detalhe, um tirador de emoção, um caçador de ombro adiantado — mas que fecha os olhos para empurrões, cotoveladas e, claro, pênaltis descarados.

Não seria o caso de criar um VAR para o VAR? Um supervisor do supervisor? Um recurso para revisar a revisão? Afinal, quando o erro está justamente no uso da ferramenta, quem nos salva da incompetência?

Enquanto isso, outras modalidades seguem dando aula. No vôlei, o desafio é simples: o técnico pede revisão, a câmera mostra, a arbitragem corrige — e fim. No tênis, o sistema eletrônico marca se a bolinha tocou um milímetro da linha, e o juiz aceita sem reclamar. O erro humano foi contornado pela inteligência artificial e, veja só, ninguém morreu por isso. Pelo contrário: o jogo seguiu mais limpo, mais justo, mais confiável.

No futebol brasileiro, porém, ainda estamos presos ao fator “interpretação”. Ou melhor: à interpretação de quem já entrou no jogo com os olhos vendados e os ouvidos tapados.

A solução? Está à vista, mas não querem enxergar. A inteligência artificial, aplicada corretamente ao VAR, já consegue detectar impedimentos milimétricos, traçar linhas automáticas e analisar contato dentro da área com muito mais isenção e agilidade. Seria uma forma de eliminar o fator humano — justamente o maior problema dessa equação.

Mas isso significaria abrir mão do poder da dúvida. E talvez, no fundo, o futebol brasileiro prefira manter esse drama constante. Porque por aqui, o gol só vale depois que o VAR permite. O pênalti só é pênalti se a cabine quiser. E a justiça é opcional.

Enquanto isso, seguimos criando desculpas, ignorando lances claros e, vez ou outra, pedindo um VAR para o VAR.

Flávio Gomes é jornalista e colaborador do site Em Cima do Lance

imagem Reprodução

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