Uma homenagem a meu padrinho, seo Lelinho

Apesar de ter começado a trabalhar cedo, tive uma infância muito bacana. Jogava futebol, brincava de bola de gude, carrinho de rolimã, empinava arraia e adorava praia.

 

Lembrei-me desta fase de minha vida porque durante esta quarentena ando meio nostálgico. Hoje me recordei de meu padrinho, uma pessoa muito importante na minha formação, que sempre me orientou e me transmitiu ensinamentos que guardo até hoje. Naquele tempo, bastava um olhar dele e eu já baixava a cabeça e saía de fininho.

Morei com meu padrinho e minha madrinha praticamente até os dez anos. Seu Lelinho e dona Tude me ensinaram muita coisa boa, principalmente a ter educação doméstica e a importância de adquirir uma boa base na escola.

Aliás, foi por causa de meu padrinho que me apaixonei pelo jornalismo. Seu Lelinho era um mulato, alto, forte, elegante, que só andava perfumado. Era estivador, mas só se vestia com terno de linho e gravata. Eu adorava ouvir as suas histórias, principalmente sobre a vida noturna lá no Comércio, do Tabaris e de fatos relacionados aos romances de Jorge Amado.

Falava também dos navios que chegavam ao porto, da carga que eles traziam, das conversas com os marinheiros, das moças que frequentavam o local à espera de uma aventura amorosa, e dizia sempre que eu tinha que estudar para ser um homem de bem. Seu sonho era que eu estudasse Direito. Queria ele que eu fosse advogado. Dizia que jornalista gostava de farra, bebia muito, era boêmio e eu tinha que estudar para ser um grande nome na magistratura da Bahia.

Por isso, sempre cobrou bons resultados na escola e me incentivava na leitura. Além disso, me presenteava com bons livros como Jubiabá, Capitães de Areia, Mar Morto, Meu Pé de Laranja Lima, Gabriela, O Cortiço, A Moreninha etc. Todo dia, quando seu Lelinho chegava em casa após o trabalho, trazia debaixo do braço dois jornais: A Tarde e o antigo Diário de Notícias. Enquanto ele ia tomar banho, eu corria para pegar o jornal e ler. Não podia deixar jornal desarrumado, porque era ‘carão’ na certa.

Para quem não sabe, ‘carão’ é bronca, pito, repreensão, desaprovação, reclamação. Por essa ação de deixar o jornal desarrumado, eu podia até ficar de castigo. Seu Lelinho gostava de ler o jornal arrumado.

Ainda estava no antigo curso primário, mas já devorava as páginas com o maior interesse. E dizia a ele que um dia ainda iria escrever em um jornal. “O senhor vai ver o meu nome num texto, como este” repetia sempre.

Claro que não realizei o seu sonho de ser advogado, mas cumpri com a minha promessa. Como comecei cedo no jornalismo, seu Lelinho pode ver o meu nome assinando uma matéria no antigo Jornal da Bahia. Foi um dia emocionante quando levei o JBa pra ele ler com a minha primeira matéria assinada.

Outro momento, de pura emoção, foi um dia em que seu Lelinho estava almoçando e ouviu França Teixeira anunciar na Resenha do Meio Dia da Rádio Cultura da Bahia a relação das pessoas que viajariam com a delegação do Vitória para Aracaju. No final, ele falou: “O jornalista oficial da delegação é Antonio Luiz Diniz, do Jornal da Bahia”. Eu não estava ao seu lado, mas soube por dona Tude que ele, realmente se emocionou ouvindo França Teixeira falando meu nome.

Aquela foi minha primeira viagem como jornalista. Antigamente, era praxe o clube convidar um repórter para viajar com a delegação. E como eu era o setorista do Vitória, terminei sendo convidado pelo ex-presidente Raimundo Rocha Pires, o Pirinho, para acompanhar a equipe rubro-negra.

 

Antônio Luís

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