A camisa que a gente não reconhece mais

Era uma vez uma camisa azul.
Azul como o céu que abraçava o Brasil em jogos de Copa do Mundo. Azul como a esperança que vestimos no peito mesmo quando tudo parecia desabar. A segunda pele da nossa história era azul. E, de repente, não será mais.

Conforme anunciado em portais nacionais, e de credibilidade, o novo uniforme, número dois brasileiro, agora será vermelho e preto. Cores bonitas, sim, mas que nunca contaram a nossa história. Nunca correram em Copas, junto com Pelé, nunca voaram nos pés de Garrincha, nunca secaram lágrimas de torcedor sofrido na arquibancada. A camisa mudou. Mudou como mudaram tantas outras coisas por aqui.

E junto com a camisa, parece que tentam mudar também o que a gente sente. A bandeira verde e amarela, que sempre foi nossa identidade maior, agora é deixada de lado em nome de campanhas de marketing. Como se tradição pudesse ser trocada por contrato. Como se amor à camisa fosse algo que se vende em loja de grife.

De um tempo pra cá, parece que tudo que tem valor é descartável. Tradição, respeito, memória… tudo trocado por negócios. O que antes era símbolo de amor, agora é vitrine de interesse. O azul virou vermelho e preto — e junto com ele, muita coisa que ainda restava foi embora.

No fundo, não é só sobre cor. É sobre a descaracterização completa da entidade que um dia fez do futebol brasileiro orgulho do mundo. Hoje, a entidade máxima do nosso esporte já não representa mais ninguém, a não ser a si mesma. Ficou famosa não por gols, mas por escândalos. Não por títulos, mas por processos e acusações de corrupção, má gestão, favorecimento de familiares, assédios abafados entre quatro paredes. Essas acusações envolveram diferentes presidentes e dirigentes da entidade, impactando a sua credibilidade e gerando crises.

A nova camisa é só um retrato fiel da bagunça que virou. Mudaram as cores porque mudaram também os princípios. Rasgaram o azul porque há tempos rasgaram a decência. E a torcida, que aprendeu a amar a seleção na bola e no suor, agora olha pra aquela camisa vermelha e preta e se pergunta: “Isso ainda é o Brasil?”

É triste ver que, antes mesmo de a Copa começar, a gente já perdeu. Não no placar. Mas na alma.

A camisa mudou de cor.
A vergonha, essa, continua a mesma.

Flávio Gomes
Jornalista e colaborador do Em Cima do Lance

Imagem: Divulgação

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