por Flávio Gomes
Seis jogos sem perder. Dito assim, parece até que o Bahia atravessa um bom momento. Não atravessa. A invencibilidade virou uma espécie de maquiagem para esconder uma realidade que está cada vez mais difícil de disfarçar: o Bahia parou de vencer, perdeu rendimento e, pior, perdeu aquele futebol que, outrora, alimentou a esperança de que 2026 poderia ser um ano diferente.
O empate por 3 a 3 com a Chapecoense, lanterna do Campeonato Brasileiro, foi o quinto consecutivo do Tricolor na competição. O Bahia esteve três vezes na frente do placar e três vezes permitiu a reação de um adversário que vive situação dramática na tabela. Rogério Ceni reconheceu que o time tinha obrigação de vencer e apontou falta de concentração, foco e “malandragem”. Também classificou como inaceitável sofrer três gols de uma equipe que atravessa momento tão complicado.
Só que o problema do Bahia já passou da fase das explicações. Falta concentração. Falta senso de urgência. Faltou aproveitar as oportunidades. Faltou matar o jogo. Falhou a marcação. Faltou isso, faltou aquilo. O torcedor já ouviu quase tudo. O que continua faltando mesmo é o Bahia jogar futebol no nível que seu investimento, seu elenco e suas pretensões exigem.
E seria injusto colocar toda essa conta nas costas de Rogério Ceni. O planejamento do Grupo City para a temporada também precisa ser colocado na mesa. Depois de um ano que prometia crescimento esportivo, o Bahia chegou aos momentos decisivos mostrando limitações que poderiam ter sido corrigidas. As eliminações na Libertadores e na Copa do Brasil não podem ser tratadas simplesmente como acidentes de percurso. Foram pancadas que expuseram problemas. E a resposta esperada depois delas não apareceu.
O time caiu tecnicamente de maneira assustadora. Jogadores que já renderam muito mais agora parecem comuns. O conjunto perdeu intensidade. A equipe ficou previsível. As soluções diminuíram. E algumas convicções de Rogério Ceni, antes sustentadas pelos resultados e pelo desempenho, hoje começam a parecer apenas insistência.
Treinador também precisa perceber quando uma ideia deixou de funcionar. Contra a Chapecoense, o próprio Ceni reconheceu: “Tínhamos a obrigação de vencer”. Disse também que a indignação precisa aparecer “dentro do campo, na atitude”. Está correto. Mas chega um momento em que essa cobrança também precisa subir alguns metros e chegar ao banco de reservas.
Porque atitude, concentração e organização de uma equipe também passam pelo treinador. O Bahia precisa olhar para o que aconteceu recentemente no Fluminense. Luis Zubeldía foi demitido mesmo com o clube ocupando a quarta colocação do Campeonato Brasileiro e ainda vivo na Libertadores. A diretoria carioca entendeu que a sequência ruim e, principalmente, a queda de produtividade exigiam uma mudança. Pode-se discutir se a decisão foi certa ou errada. O fato é que posição na tabela não serviu como escudo diante do que o time apresentava dentro de campo.
No Bahia, a discussão precisa existir. Não significa apagar o trabalho de Rogério Ceni. Muito menos esquecer os bons momentos construídos durante sua passagem pelo clube. Significa entender que futebol não vive de gratidão eterna nem de currículo acumulado. Vive do presente. Nos últimos 15 jogos, por exemplo, o Bahia venceu apenas dois compromissos.
O Tricolor ainda tem elenco, estrutura, investimento e tempo para salvar uma temporada que começa a escapar pelas mãos. Mas alguma coisa precisa mudar. Se a transformação não acontece mais dentro do próprio grupo, talvez tenha chegado a hora de discutir quem conduz esse grupo.
Uma nau pode suportar tempestades, ondas fortes e até alguns desvios de rota. O que não pode é continuar navegando sem saber para onde está indo. O Bahia ainda não afundou. Mas está à deriva.
Flávio Gomes é jornalista, Editor de Esportes do jornal Tribuna da Bahia e colaborador do site Em Cima do Lance
Foto Catarina Brandão / Bahia










