No Tempo do Futebol Romântico na Bahia

No Tempo do Futebol Romântico na Bahia

A começar pelos Dirigentes, eles se destacavam por suas entrevistas onde o espírito de torcedor estava neles pulsando e falar em salários para eles seria algo abominável. Muitos deles colocavam dinheiro do próprio bolso para bancar as despesas dos seus amados clubes.

Eles entravam também em campo com seus times e eram saudados, ovacionados, pelas torcidas, a exemplo de Osório Vilas Boas e Raimundo Rocha Pires, o Pirinho.

E os técnicos. Cada um com seu estilo próprio de comentar os jogos, com palavreados originais e a nomear seus esquemas táticos de formas inusitadas.

Amaro China mesmo criou o Esquema Enxuga Rato.

Sotero Monteiro que conhecia o jogador pelo arriar das malas. (no hotel dele) criou o Esquema Encandeamento quando seu time, o Botafogo da Bahia, foi jogar numa preliminar com Sol a Pino.

Colocou no ataque só jogadores loiros. Justificou dizendo que era pra o reflexo do Sol nos cabelos loiros dos seus atacantes encandearem os defensores adversários.

As preleções deles eram coisa de cinema. A destacar Pinguela, Tombinho, Velha e Pio Sacramento, este muito antes do Carrossel Holandês já dizia que seu time iria jogar como as ondas do mar, vem e volta: o vem era todo mundo atacar e o volta era todo mundo se defender.

A destacar que a maioria deles era de ex jogadores mesmo.

Não tinha também na época esta tal de área técnica pra eles ficarem querendo aparecer mais que os jogadores, não.

Quando queriam dar uma instrução, não gritavam pra seus jogadores, pois não queriam que o técnico adversário ouvisse e também os jogadores contrários.

Eles chamavam o massagista e este levava a instrução para o goleiro e aí a instrução era repassada. Também no atendimento de algum jogador que estava caído em campo, o massagista dava o recado do técnico.

Hoje os técnicos, uns nunca jogaram bola na vida, agora são cheios de cursos, são todos por demais eloquentes, falam todos sempre as mesmas coisas, nisto levaram a imprensa a imitá-los e até os torcedores também. Nunca vi tanto neologismos. Um assombro! Um tremendo besteirol pra falar as mesmas coisas, pois o fundamental no futebol não mudou , é o mesmo de cabo a rabo, do começo ao fim, de uma ponta à outra, de fio a pavio: efe é igual fê e éle é igual a lê.

Hoje técnico e jogadores são vezeiros a ficarem reclamando dos campos pra justificar seus medíocres desempenhos.

Eu vi San Felipo praticar um futebol impressionante num campo esburacado, com um moio de grama ali, outro acolá, isto no Campo da Graça.

Vi também San Felipo praticar um futebol maravilhoso na Fonte Nova.

Estive ao lado de Mário Sérgio jogando a noite no Campo lá de Juazeiro com uma iluminação e condição do gramado precárias, isto lá nos idos da década de 70 do século passado, e ele assim mesmo bailava em campo igualmente fazia na Fonte Nova.

O problema mesmo do Brasil é a falta de craques na excepção da palavra, e craques com personalidades fortes, marcantes, para não ficarem em campo engessados em rígidos esquema táticos que na sua grande maioria privilegia a defesa, mas que ousem fazer suas próprias leituras dos jogos, ousando, criando saídas para as dificuldades surgidas.

Pensando bem, no futebol romântico do nosso tempo até os árbitros eram diferentes, cada um com seu biotipo característico, marcantes.

Lembram de Walter Gonçalves, de Clinamute França por exemplo.

Walter parecia uma pulga, baixinho com uma barriga enorme. Correndo era uma graça. Era sim muito respeitado pelos jogadores.

Já Clinamute era um gladiador, forte que só ele. Que jogador ousaria peitá-lo.

Hoje todos eles são quase idênticos a exibir seus avantajados músculos e os jogadores não estão nem aí pra eles. Os deixam acuados o tempo todo. Até por uma simples lateral pressionam os árbitros.

E os folclóricos massagistas dos times, hein!

Eles faziam parte do espetáculo, sim senhor.

Como era legal vê-los entrar em campo, cada um com seu estilo próprio de pique. Vez em quando tomavam suas quedas e o público era só risada.

Só lembrando de alguns: Gaguinho Focinho de Porco (Vitória),Alemão ( Bahia )e China (Botafogo da Bahia)

Hoje são os Fisioterapeutas que dão os primeiros socorros aos jogadores, figuras praticamente invisíveis, ninguém os conhece, nem sabe os seus nomes.

Da mesma forma os médicos!

No Vitória havia um roupeiro chamado Carcaça que todo jogo dava o seu show particular, quando ia correndo com seus passos largos buscar uma chuteira ou uma nova camisa para um jogador. Ele era todo o personagem Pateta de Walt Disney.

E as torcidas adversárias se fazendo presentes nas partidas.

Antes e depois dos embates os torcedores juntos bebendo nos bares que existiam nos arredores dos estádios.

Nos Estádios cada uma torcida com seu lado próprio de arquibancada e na Geral tudo junto e misturado, que tal!? Bom demais. Uma briguinha vez em quando, com mais apaziguadores que inflamadores.

Hoje existem as tais Torcidas Organizadas que são verdadeiros catalisadores para a Prática da Violência.

Se fazem presentes nos estádios , porém os jogos e os times não passam de meros penduricalhos para curtirem a festa tribal deles.

Os Apostadores!

Tinham um local na arquibancada reservado para eles. Lá se faziam presentes todas as classes sociais. De Doutor a Biscateiro. Apostavam tudo. O 1° time a entrar em campo, a primeira lateral, o primeiro escanteio, o 1° impedimento, a primeira falta, a primeira mão e tudo mais.

E antes das partidas serem finalizada, os torcedores que estavam tristes por estarem assistindo seu time perder , se uniam aos torcedores adversários nos risos e apulpos ao pessoal do Xaréu que entrava no estádio na maior correria pra só assistir os minutos finais dos jogos.

Era comum muitos integrantes do Xaréu tomarem quedas homéricas tropeçando uns nos outros.

Quem viu, viu, quem viveu, viveu e com certeza nunca se esqueceu!

Texto muito bom e verdadeiro, escrito por Coruja Medrado.

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