O alerta que ninguém quer ouvir

Durante décadas, pensar em uma Copa do Mundo sem o Brasil era praticamente um sacrilégio. A Seleção era presença garantida, favorita ao título e dona de uma identidade que fazia o mundo parar. A camisa amarela pesava antes mesmo de a bola rolar.

Hoje, essa certeza já não parece tão inabalável.

Não se trata de pessimismo. Tampouco de terra arrasada depois de mais uma eliminação. O alerta nasce dos números, dos acontecimentos e de uma sequência de fatos que, quando analisados em conjunto, desenham um cenário preocupante para o futebol brasileiro.

O Brasil continua produzindo bons jogadores. Isso ninguém discute. O problema é que, há alguns anos, deixou de produzir protagonistas. Aqueles atletas capazes de carregar uma seleção nas costas nos momentos decisivos.

Foi assim com Pelé em 1958 e 1970. Com Garrincha em 1962. Com Romário e Bebeto em 1994. Com Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho em 2002. Até as seleções de 1982 e 1986, que não conquistaram o título, tinham um celeiro de craques que encantava o mundo e, até hoje, é lembrado como uma das maiores concentrações de talento da história do futebol.

A seleção atual transmite uma sensação diferente. Existem bons jogadores espalhados pelos principais clubes da Europa, mas falta aquele líder técnico capaz de transformar equilíbrio em vitória, dificuldade em confiança e pressão em combustível. A diferença parece pequena, mas, em uma Copa do Mundo, costuma separar campeões de eliminados.

Os resultados ajudam a explicar essa preocupação.

A campanha brasileira no Mundial deste ano foi a pior desde 1990. Mais do que isso, foi consequência de uma Eliminatória igualmente decepcionante, encerrada apenas na quinta colocação. Não foi um acidente de percurso. Foi a continuação de um desempenho que já dava sinais claros de desgaste muito antes da bola rolar na Copa.

Enquanto isso, fora das quatro linhas, a Confederação Brasileira de Futebol segue acumulando crises que parecem não ter fim.

Nas últimas décadas, a entidade conviveu com presidentes presos, banidos do futebol, afastados por decisões judiciais e envolvidos em sucessivos escândalos. Mudam os nomes, mudam os discursos, mas a instabilidade permanece como marca registrada da administração do futebol brasileiro.

Nem a atual gestão escapou das polêmicas. Em meio à disputa da Copa, surgiram denúncias sobre suposto uso irregular de recursos da entidade para custear despesas pessoais. Independentemente do desfecho das investigações, o episódio amplia a sensação de que a CBF continua ocupando mais espaço no noticiário político do que no planejamento esportivo.

Como se isso não bastasse, há décadas convivem com o futebol brasileiro suspeitas sobre a influência de interesses comerciais e de patrocinadores nas convocações da Seleção. Nunca houve comprovação definitiva que sustentasse essas acusações como prática institucional, mas o simples fato de elas sobreviverem por tantos anos revela um problema de credibilidade que nenhuma potência do futebol deveria carregar.

Se tudo isso parece exagero, basta olhar para a Itália.

Tetracampeã mundial, dona de uma das camisas mais respeitadas da história, a seleção italiana também acreditava que sua tradição bastava. Depois do título de 2006, veio a queda na fase de grupos em 2010 e 2014. Em seguida, o impensável: ficou fora das Copas de 2018, 2022 e também da edição de 2026. A decadência não aconteceu de um dia para o outro. Foi construída aos poucos, impulsionada por escândalos, problemas administrativos, perda de competitividade dos clubes e ausência de renovação consistente.

Nenhuma potência está imune.

Do outro lado está a Espanha, hoje novamente entre as principais seleções do planeta. O sucesso espanhol não nasceu por acaso. É fruto de um projeto contínuo de formação de atletas, integração entre categorias de base e manutenção de uma filosofia de jogo.

O contraste aparece até nos Jogos Olímpicos. Da seleção espanhola medalhista de prata, oito jogadores chegaram à final desta Copa do Mundo. O Brasil, campeão olímpico, teve apenas dois atletas daquele grupo participando do Mundial. Enquanto um país transforma sua base em seleção principal, o outro parece recomeçar do zero a cada novo ciclo.

Após a eliminação, a CBF publicou um vídeo motivacional falando em esperança e na capacidade de o Brasil voltar mais forte.

A mensagem emociona. Mas o futebol não é movido apenas por discursos.

Os números não mentem. Os resultados também não. A falta de protagonistas é evidente. A instabilidade administrativa continua presente. E o planejamento da Seleção ainda parece distante do que fazem as grandes referências do futebol mundial.

Quatro anos passam depressa.

Tempo suficiente para recuperar uma equipe. Pouco tempo para reconstruir um sistema que vem apresentando sinais de desgaste há muito mais tempo.

O brasileiro aprendeu a repetir, com orgulho, que nunca desiste.

Mas, no futebol, insistir apenas na esperança pode ser o caminho mais curto para ignorar a realidade.

Porque nenhuma camisa, por mais pesada que seja, vence sozinha. E nenhuma tradição é grande o bastante para garantir, eternamente, um lugar entre os protagonistas do futebol mundial.

Flávio Gomes – Jornalista, Editor de Esportes da Tribuna da Bahia e colaborador do Em Cima do Lance

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