O futebol não perdoa discurso

O Bahia entra em uma fase na temporada com um incômodo que não dá mais pra esconder debaixo do tapete. Não é só resultado. É a sensação de que o time anda em círculos.

Perder duas vezes para o Remo, levando sete gols no total, não é um tropeço qualquer. É um recado dado dentro de campo. Um time que quer ser protagonista não pode se permitir neste tipo de exposição, ainda mais contra um adversário de orçamento e estrutura inferiores. O torcedor sente, cobra, e com razão. Não é sobre desmerecer o rival, é sobre entender o tamanho do próprio Bahia.

E aí entra o ponto mais delicado: ganhar estadual já não basta. Ficou pequeno diante do que foi prometido. A queda na fase preliminar da Libertadores doeu porque simboliza uma barreira que o clube ainda não conseguiu romper. E a situação complicada na Copa do Brasil só amplia esse cenário. O Bahia hoje parece um time que ainda não se decidiu se quer ser grande de fato ou apenas competitivo em nível regional.

Insiro também o trabalho de Rogério Ceni no centro desse debate. Ele mesmo reconheceu após a derrota:
“Não tem como dar explicação ao torcedor, nós falhamos hoje. Quando joga contra times de linha baixa, tem que caprichar na construção… temos essa dificuldade de fazer gols”.

O problema é que essa fala não é nova. A dificuldade ofensiva virou padrão. O Bahia tem posse, circula, mas cria pouco e finaliza mal. Contra times fechados, falta criatividade. Contra equipes que jogam em transição, falta precisão. É um time previsível. E no futebol de hoje, previsibilidade é sentença. Se a falha é recorrente desde o início do trabalho, não é mais detalhe. É característica. E característica, quando não corrigida, vira limite. Repertório desgastado.

O planejamento do Grupo City também precisa entrar na conversa. A promessa sempre foi de evolução constante, mas o que se vê na prática ainda é tímido. Segunda janela com apenas um reforço confirmado passa uma mensagem perigosa, de que o elenco atual é suficiente. E claramente não é! Falta peso. Falta jogador que resolva. Falta ousadia.

E aqui entra um ponto que o torcedor precisa encarar com maturidade: parar de usar o passado como escudo. Não dá mais pra comparar com anos de luta contra rebaixamento como forma de aliviar o presente. O Bahia mudou de patamar institucional. A cobrança também precisa mudar. Querer mais não é ingratidão. É coerência.

Os números recentes acendem o alerta de vez. Duas derrotas seguidas pela primeira vez no ano. Em seis jogos, quatro derrotas. Isso não é oscilação. É tendência. E tendência, se não for interrompida, vira crise.

O que esperar do Bahia na sequência da temporada? Um time pressionado a se reinventar rapidamente. Um treinador que precisa ampliar repertório e encontrar soluções que até agora não apareceram. Uma diretoria que precisa agir no mercado com mais coragem. E um torcedor que precisa cobrar com consciência de quem sabe o tamanho que o clube pode alcançar.

O futebol não perdoa discurso. Ele cobra entrega. E o tempo, esse sim, já começou a cobrar o Bahia.

Flávio Gomes é jornalista e colaborador do Em Cima do Lance

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