O futebol brasileiro sempre conviveu com o erro. Ele fazia parte da liturgia do jogo, da mesa de bar, da resenha de segunda-feira. Mas havia um pacto silencioso: o erro era humano, inevitável, parte da imperfeição que tornava o futebol vivo. O problema é que, hoje, o erro deixou de ser compreensível e passou a ser inexplicável.
Vivemos a era do VAR, da câmera em alta definição, da linha traçada no milímetro e das transmissões com inúmeras imagens projetas, de vários ângulos, para todo o mundo. Nunca se teve tanto recurso para acertar. E, ainda assim, nunca se discutiu tanto a arbitragem.
Neste fim de semana, dois lances praticamente idênticos expuseram o abismo de critérios. Em um jogo, entre Coritiba e Fluminense, a decisão correta. No outro, na Arena Fonte Nova, o silêncio. Nenhuma revisão, nenhum chamado, nenhum constrangimento institucional. Como se fossem esportes diferentes.
Porque é disso que se trata: investimento. Clubes estruturam temporadas inteiras, contratam jogadores, mobilizam milhões para que tudo, no fim, possa ser decidido em segundos. Segundos que deveriam ser de análise precisa, mas que, muitas vezes, são de omissão.
Na partida entre Bahia e Palmeiras, o lance que definiu o jogo não foi sequer revisado. E o incômodo não veio só das arquibancadas. Veio também do banco de reservas. O técnico Rogério Ceni foi direto, sem rodeios, como quem já não acredita mais no protocolo.
“É uma vergonha a arbitragem de hoje. O VAR principalmente. O lance é claríssimo e define o jogo”.
Não se trata de acusar má intenção e isso precisa ser dito com responsabilidade. Árbitros não entram em campo para errar deliberadamente, acredito. Mas o futebol profissional não pode mais conviver com erros amadores. Essa é a contradição central.
A arbitragem brasileira ainda vive entre dois mundos: o da exigência máxima e o da preparação limitada. Cobra-se precisão cirúrgica de profissionais que, muitas vezes, não têm dedicação exclusiva, não têm transparência nos processos e não têm que prestar contas públicas após decisões que mudam campeonatos.
E talvez esse seja o ponto mais sensível: a ausência de explicação. O VAR decide, o árbitro valida, o jogo termina e o silêncio permanece. Como se o futebol não devesse satisfações a ninguém. Não é sobre um lance. Nunca é. É sobre confiança.
Quando dois lances iguais têm destinos diferentes, o torcedor deixa de discutir futebol e passa a discutir justiça. E quando isso acontece, o jogo perde sua essência.
A profissionalização da arbitragem não é mais uma pauta, é uma urgência. Árbitros precisam ser tratados como atletas: treinados, avaliados, cobrados e, principalmente, expostos à transparência. Explicar decisões não enfraquece a autoridade, fortalece a credibilidade.
Porque, no fim, o futebol não pode ser decidido pelo acaso de quem está na cabine.
Se milhões são investidos ao longo de meses, o mínimo que se espera é que o segundo decisivo — aquele que muda tabelas, narrativas e temporadas — seja conduzido com o máximo de preparo possível.
Hoje, não é. E todo mundo está vendo.
Flávio Gomes é jornalista e colaborador do Em Cima do Lance
Foto: Reprodução

















Respostas de 4
Flávio Gomes “esquece” de dizer que, antes de sofrer a falta, o atleta do Bahia comete falta, no.mesmo lance.
Mas, como o choro é livre, melhor chorar, que enxergar a realidade
Olá Paulo, Tudo bem? Os lances são discutíveis. Não existe choro, apenas uma humilde análise clara e técnica. Na imagem existe o famoso pega-pega entre dois jogadores, não existindo interveferência e/ou lance faltoso, até porquê, o futebol é de contato. Porém, no lance seguinte, o jogador do Palmeiras, não disputa a bola, não sai nem do chão, e desloca o jogador do Bahia com o braço, impedindo do mesmo de cabecear a bola. O lance é claro! Só faltou mesmo a boa vontade da equipe de arbiragem enxergar melhor…entre outros…
Lances polêmicos, ou até mesmo lances claros, já que polêmica se trata de uma discussão sobre opiniões divergentes, acontecem toda rodada do campeonato brasileiro.
O lance em questão envolvendo o 2º gol do Palmeiras gerou polêmica, embora, entre as mesas de debates esportivos e bate papos com torcedores anônimos de diversos clubes e na sua maioria, não enxergou qualquer irregularidade na jogada.
É lógico que o lado tricolor, seu técnico, jogadores e imprensa local vão sustentar o discurso de irregularidade no lance que decidiu o duelo e, que belo duelo por sinal, como sempre protagonizam Bahia x Palmeiras.
Vi e revi esse lance várias vezes e por vários ângulos e sinceramente não consegui enxergar a tão reclamada falta de Gomes na jogada.
Acho que a imprensa esportiva tem a responsabilidade e o dever de fazer análises técnicas sobre os lances do futebol. Sem clubismo ou regionalismo, até porque, acima de tudo, o torcedor que é apaixonado pelo seu clube, mas que enxerga o futebol com realismo e isenção, sabe identificar muito bem o que acontece de fato nas partidas. Ele entende de futebol.
Não é a opinião de comentaristas de arbitragem ou de cronistas esportivos que deve pautar a sua opinião sobre aquilo que ele está vendo no campo ou na TV, porque, brigar com a imagem hoje em dia com tanta tecnologia e dezenas de câmeras espalhadas pelo campo não é lá muito inteligente.
Bola pra frente! O Bahia tem um belo time e vai continuar brigando na parte de cima da tabela de novo esse ano.
Quanto ao placar do jogo, embora o Bahia tenha feito uma partida até melhor do que o Palmeiras foi uma vitória do time que foi mais resiliente, mais sortudo e letal. Sem interferência alguma da arbitragem.
OLá Vicente, tudo bem? A imprensa nacional descreeu o lance em duas formas: com e sem falta. quem tem a razão? Talvez a que nós queremos ouvir. Já a outra é descartada e acusada de “clubismo”. Acredito que leu a crônica por copleto. Nela defendo a profissionalização da arbitragem e descrevo a falta de critério em dois lances iguais, no mesmo final de semana, com decisões diferentes. A iagem está aí para quem quer ver… se o ato de emurrar não é falta, então tudo bem. Acusar a imprensa é fácil! Abraço!