Antigamente os clubes, especialmente os nossos (Bahia e Vitória), não tinham a estrutura que possuem hoje e, às vezes, quando chegava um jogador contratado de outro estado, este mesmo tinha de se deslocar até a sede do clube, ou dormir em um hotel para no dia seguinte se apresentar na concentração.
No início da década de 70, o Vitória contratou junto ao Palmeiras o goleiro Neuri. Lembro que o presidente do clube era o saudoso Raimundo Rocha Pires, o Pirinho, e o supervisor era o, também saudoso, Divalmiro Sales.
Aliás, Divalmiro Sales, no Vitória, e Orlando Aragão, no Bahia, fizeram excelentes trabalhos numa época em que as comunicações não eram tão fáceis como hoje.
O fato é que os clubes viajavam com tudo organizado, ônibus esperando nos aeroportos, reservas de hotéis, translados para estádios. Tudo saia perfeito. E olha que nesta época nem celular existia.
E os dois supervisores dos nossos dois maiores clubes (Orlando Aragão, está vivão morando na ilha) fizeram dois grandes sucessores: no Vitória, Mário Silva e no Bahia, Roberto Passos. Mário segue no Vitória e Roberto seguiu a vida por outros caminhos.
Naquele dia em que o goleiro Neuri chegou no aeroporto Dois de Julho, não tinha ninguém do Vitória lhe esperando. Ou ele antecipou o voo, ou chegou mais tarde, ou outro motivo causou o desencontro. O fato é que ele se viu sozinho ao chegar em Salvador.

Naquele período, eu fazia uma resenha esportiva na Rádio Excelsior da Bahia (AM 840), cuja sede ficava na Praça da Sé, no Edifício Ruby, quarto andar. O programa era das 20 às 21 horas.
Normalmente, quando terminava o programa eu ia embora. Mas não sei porque, nesse determinado dia eu fiquei batendo papo com alguns amigos em frente à sede da rádio.
De repente, chega um táxi e salta um cara alto, com porte de atleta.
– Boa noite! Por favor, me disseram que a Rádio Excelsior fica por aqui, vocês sabem onde é?
Perguntou o cidadão e eu de pronto falei:
– Eu trabalho lá, acabei de fazer um programa agora.
– Rapaz, eu sou Neuri, goleiro do Palmeiras, e fui contratado pelo Vitória. Cheguei agora no aeroporto e não tinha ninguém me esperando.
– Fique tranquilo que a gente vai resolver esse problema. Falei para ele.
Nos despedimos das pessoas que estavam comigo, voltamos para a sede da Rádio Excelsior e liguei para a casa do meu amigo Gustavo Vieira, que desde aquela época fazia parte da diretoria do Vitória.
Gustavo Vieira é mais um daqueles chamados “baluartes” do Vitória. Fez muito pelo clube, mas hoje se limita a ouvir e assistir aos jogos do seu clube.
Naquele ano, Gustavo morava no Jardim Bahiano. Liguei para ele, expliquei a situação e ele me pediu que levasse o Neuri até a casa dele.
– Você me faz esse favor, Mário Freitas?
– Claro Gustavo, você merece.
Disse a Neuri que o problema estava solucionado, pois Gustavo iria tomar as providências. Pegamos o meu carro e nos dirigimos até a casa do Gustavo Vieira.
Lembro de que ao chegarmos no local, estava havendo uma festa. Era aniversário de um dos filhos do Gustavo Vieira. Ele tem três: um homem e duas mulheres. Não lembro quem era o aniversariante.
Chegamos na porta, imediatamente fomos convidados para entrar. Apresentei o goleiro Neuri ao Gustavo e não recusamos o convite. Isso já era mais de 22 horas, eu estava com fome e Neuri, também, porque ele tinha feito uma viagem de São Paulo até Salvador, fora as horas de espera em aeroportos.
Depois de aproveitar os deliciosos petiscos na casa do meu amigão Gustavo, deixei Neuri por lá, que mais tarde foi levado para um hotel, aqui na cidade. Fui para casa porque no dia seguinte tinha uma nova jornada de trabalho.
Aliás, o goleiro Neuri não teve uma passagem muito feliz no Vitória. Ele, inclusive, foi o titular na partida em que o Vitória levou uma goleada histórica de 7 a 2 do Ceará, num amistoso na Fonte Nova.
O dia em que o Vitória esqueceu de mandar alguém receber o recém-contratado, goleiro Neuri do Palmeiras, no aeroporto Dois de Julho, acabei sendo o seu anfitrião e depois fui comer deliciosos petiscos em um aniversário na casa do Gustavo Vieira, foi mais uma das curiosas histórias que aconteceram comigo neste fantástico mundo da bola.
Marão Freitas.
















