A arbitragem brasileira deixou de ser apenas um problema técnico faz tempo. Virou um problema institucional. O pior não é o erro. O futebol sempre conviveu com erro. O insuportável é a falta de critério. Em um jogo, o VAR chama. No outro, silencia. Em um estádio, o toque é pênalti. No outro, “lance interpretativo”. A sensação é de que cada rodada começa com uma regra diferente.
O Vitória conhece bem esse roteiro indigesto. Contra o Flamengo, pela Copa do Brasil, o clube saiu revoltado com decisões que pesaram diretamente no resultado. Dias depois, diante do Athletico, pelo Brasileiro, a indignação aumentou. Pênalti contestado, expulsões ignoradas e um VAR que parecia assistir outro jogo. Não por acaso, atletas, diretoria e comissão técnica explodiram após o apito final.
E aí aparece o velho personagem do futebol brasileiro: o STJD. Não para esclarecer o torcedor. Não para cobrar transparência da arbitragem. Não para exigir explicações públicas dos árbitros. Surge para punir quem reclama.
O atacante Erick, o técnico Jair Ventura e o presidente Fábio Mota foram denunciados por críticas à arbitragem após a partida contra o Athletico. Erick falou em “roubado de novo”. Jair disse que tudo “vai acabar em pizza”. Fábio Mota classificou a arbitragem como “escândalo”. Resultado: denúncia, julgamento e ameaça de suspensão.
Curioso como o sistema funciona rápido quando a indignação vem do microfone de um treinador ou da entrevista de um jogador. Já quando o erro é da arbitragem, o futebol brasileiro oferece apenas notas frias, áudios seletivos e aquele silêncio constrangedor de sempre.
E não é exclusividade do Vitória.
No Bahia, David Duarte foi punido após usar a palavra “roubo” em entrevista depois da derrota para o Palmeiras. Rogério Ceni pegou suspensão por críticas consideradas desrespeitosas à arbitragem. Cadu Santoro também foi punido. O discurso é sempre parecido: preservar a imagem da arbitragem.
Mas quem preserva a imagem do campeonato?
Quem protege o torcedor que paga caro para assistir jogos decididos por interpretações confusas? Quem explica por que lances idênticos recebem decisões opostas na mesma rodada? Quem responde ao clube que perde pontos, dinheiro e estabilidade por causa de erros repetidos?
O futebol brasileiro criou uma cultura perigosa: reclamar virou mais grave do que errar.
O árbitro falha e segue escalado. O VAR se omite e nada acontece. Mas o dirigente que explode na entrevista vira réu instantaneamente. O técnico que questiona critérios é tratado como ameaça à ordem. O jogador que fala o que o torcedor está gritando no sofá acaba suspenso.
Existe exagero em algumas falas? Claro que existe. O calor do futebol nunca foi território da diplomacia. Mas também existe um esgotamento evidente. Clubes, atletas e torcedores estão cansados de pedir coerência e receber processos.
A arbitragem brasileira precisa entender uma coisa simples: autoridade não se impõe no grito nem na punição. Autoridade se conquista com critério, transparência e confiança.
E hoje, sinceramente, quase ninguém confia mais.
Foto: Victor Ferreira / EC Vitória
Flávio Gomes é Jornalista e colaborador do Em Cima do Lance

















