A alcunha de voz feminina do reggae pode até parecer elogio, mas carrega certo preconceito sobre o papel da mulher neste ritmo de resistência. O melhor seria a voz ou a referência do reggae, sem o rótulo para diferenciar dos homens. Até porque existem diversas artistas do gênero, de grande valia, mas as camadas e os obstáculos impedem que elas tenham a mesma visibilidade de nomes como Edson Gomes. Lançando o primeiro EP da carreira, Renata Bastos, apontada como a pessoa que melhor canta Bob Marley na Bahia, parece até uma cantora novata e empolgada com o filho já grande que acaba de nascer, mas a verdade é que foram mais de 10 anos até conseguir ver o fruto de seu trabalho brotar como semente.
“Eu já passei por uma guerra que era assim: você é a voz feminina do reggae. Aí, daqui a pouco, eu penso: mas venha cá, e quem é a voz masculina do reggae? Me responda aí”, questiona. Para ela, a própria expressão revela um machismo estrutural que não aparece apenas na música. “Você nunca ouviu alguém perguntar quem é a voz masculina do reggae. E a gente vê em outros lugares também. Por exemplo, no futebol: Marta é a Pelé do futebol feminino. Você está entendendo? Machismo estrutural demais, demais, demais, demais”, desabafa, enquanto se sentava nas escadarias da Casa de Jorge Amado, no Pelourinho.
Renata não rejeita o reconhecimento, mas gostaria que ele viesse de outra forma. Depois de anos cantando reggae, ela diz que um dos maiores elogios que pode receber é justamente aquele que retira o gênero da equação. “Para mim, ser a melhor pessoa que canta Bob Marley é um elogio incrível. Não falou que é a voz feminina, não falou que é só assim. Não interessa se é homem ou se é mulher. É uma artista e ela está interpretando outro artista. E essa artista aqui, sabe? Me identificar como artista, não apenas como mulher artista. Entende a diferença?”, pondera. É por isso que a palavra que melhor define o que busca não é destaque, mas pertencimento. Ou melhor, a arte de ocupar os lugares.
Primeiro EP autoral de Renata Bastos, voz do reggae por Sora Maia
“Eu não tenho interesse de chegar em lugar nenhum sozinha. Para mim não faz nenhum sentido. Quero é trazer a força direcionada para a mulher, para a força do feminino em uma música que já é marginalizada. Imagine ainda ser mulher…”, afirma. Na prática, ela tenta fazer isso abrindo espaço para outras artistas. Renata cita uma série de mulheres que fazem parte da cena, como Noemy, Pali, Tulane, Baronesa, Nana Xara e Rianne Mascarenhas.
“Todo lugar tem mulher maravilhosa fazendo show, mulheres boas mesmo. A gente se aproxima por admiração e por identificação. A gente senta para conversar de música, para fazer música, para conversar: o que você está fazendo, o que você está precisando? Posso te ajudar? É coletivo mesmo. De verdade em verdade”. O problema, segundo ela, é justamente transformar essa presença em protagonismo. “Hoje eu consigo citar mais mulheres do reggae do que homens. A dificuldade que a gente tem é de protagonizar mesmo. A gente encontra pouco espaço para protagonizar, especialmente sendo mulher”.
Renata não fala apenas da ausência feminina. Ela conhece a cena por dentro e reconhece que o próprio reggae ainda ocupa um espaço restrito no mercado musical. “Hoje o reggae ainda tem um espaço muito limitado. A gente tem nichos, tem nossos quilombozinhos que a gente se junta e tem aquele público fiel, de todas as idades. É uma coisa emocionante mesmo. Em todos os eventos você vê homens, mulheres, crianças, idosos, todo tipo de gente”. É dentro desse público que ela diz se sentir acolhida. O problema está em ultrapassar a bolha. “No ambiente do reggae eu me sinto absolutamente abraçada e reconhecida e sou muito realizada com a comunidade do reggae. Agora, os espaços são muito limitados para qualquer tipo de protagonismo feminino. É luta em cima de luta.”
A trajetória até o primeiro EP também ajuda a explicar por que o lançamento tem um peso diferente para a cantora. Broto Semente reúne sete canções autorais compostas ao longo de sua caminhada e foi sendo construído durante mais de uma década. As músicas atravessaram fases diferentes da vida de Renata, ganharam novos arranjos e amadureceram junto com a artista.
“A gente tem a maturidade de trazer tudo que a gente queria dizer há dez anos e que continua querendo dizer, porque as coisas ainda, as lutas ainda são muito parecidas com as lutas que eu tinha lá atrás”, conta. Amor, fé, resiliência e a força feminina aparecem entre os temas que atravessam o trabalho. O nome do EP vem justamente de uma dessas músicas. “Escolhi essa música para levar o nome do disco porque é uma coisa que está nascendo, que está brotando.” A faixa, segundo ela, fala da força da mulher, da mudança, da fé e da crença no que se faz e no que se é.
O nascimento, porém, não aconteceu de maneira simples. Produzir música independente exige que a própria artista assuma funções que vão muito além do palco. Renata faz as próprias fotos, cuida do design, produz shows, conversa com contratantes, contrata músicos e articula participações. “É tudo em eu, tudo sou eu. E, se eu não quiser, ninguém faz”. A brincadeira de que está “parindo um filho grande” aparece justamente nesse contexto. Para ela, lançar o primeiro trabalho autoral depois de tantos anos não tem exatamente a delicadeza de um nascimento. “Não tem aquela fofura. É o sentimento de formatura, não de nascimento, sabe?”

cantora de reggae Crédito: Sora Maia
A dificuldade não está apenas no trabalho. Há o custo. Estúdio, produtor, músicos, equipamentos, divulgação, transporte, alimentação e hospedagem se tornam obstáculos para quem vive de uma trajetória independente. “Você depende de apoio, você pede incentivo, depende de patrocínio, depende de um bocado de coisa, porque a realidade da arte não permite que a gente seja tão livre assim quando a arte propõe, quando a arte necessita.”
Ela conhece bem essa conta. Recentemente, recebeu convites para levar o trabalho para outros lugares, mas a possibilidade de viajar com a banda esbarra na estrutura necessária.
“Você precisa ter transporte, alimentação, hospedagem. Aí não é só seu. É a banda. Só para ter uma ideia, artistas do reggae internacional, quando são convidados para tocarem aqui, só vem o cantor. Eles contratam bandas daqui. Imagine eu, criatura?”, brinca.
A dificuldade de circular também aparece quando o assunto são os espaços de Salvador. Renata comemora a oportunidade de apresentar Broto Semente na Casa Rosa, no Rio Vermelho, mas lembra que o acesso a determinados palcos ainda é desigual. “Para mim está sendo um luxo incrível tocar na Casa Rosa. Uma casa super bonita, super conceituada, posicionada, bem posicionada no mercado e no circuito. Estou muito feliz”, resume.
Existe ainda uma questão econômica. O público tradicional do reggae, lembra Renata, nem sempre consegue pagar ingressos caros. “Você não pode cobrar cem reais. Você não pode cobrar cinquenta reais. Porque é uma galera que consome o reggae. Você tem que ter esse entendimento. É o entendimento de resistência, critério das suas escolhas.”
A cantora compara a cena atual com a Salvador que conheceu na adolescência, quando o reggae dialogava com outros movimentos da música alternativa. Nascida em 1982 e criada em Itaparica, ela acompanhou uma época em que nomes e espaços ligados ao reggae faziam parte de uma programação mais diversa da cidade. Havana, Alambique, Café Cultura e Café Calypso aparecem nas lembranças, além de referências do reggae, como Nengo Vieira, que se misturava com rock, como Catapulta. Era um liquidificador cultural de opções, seja artístico ou lugares.
Para Renata, a questão não é apenas o desaparecimento de determinados espaços, mas a dificuldade de a música voltar a ocupar a vitrine. “Aqui [abre os braços, mostrando o Pelourinho] você encontra reggae em cada esquina. Você não encontra é na televisão, você não encontra na divulgação, você não encontra nas grandes mídias”. A crítica também passa pela repetição dos mesmos nomes nos eventos. “É muito chato quando a gente vê sempre as mesmas bandas nas mesmas festas. Tem aqueles três nomes ali. Você sabe: aqueles três nomes vão estar. Fecha todo tipo de festa, todo tipo de evento. Só tem três bandas. Às vezes tem quatro”.

Primeiro EP autoral de Renata Bastos, voz do reggae Crédito: Sora Maia
Mesmo diante da frustração, ela diz que não consegue abandonar a música. “A gente fala: poxa, cara, como está difícil esses dias? Como foi difícil esse mês? Mas ninguém fala assim: não vou fazer mais, não. Não. Porque a gente não consegue, cara. É um bichinho que morde”. O vínculo com a arte, segundo ela, é tão forte que a própria possibilidade de desistir acaba sendo combatida pela rede construída ao longo da carreira.
“Eu falo com a galera: galera, não vou mais cantar, não. Quero trabalhar com outra coisa. Eu quero outro emprego. Não vou não. Aí eles dizem: não, minha irmã, você tem que ficar. Você é muito importante para a gente”. Essa rede também está dentro do próprio EP. Os músicos que participaram da construção do trabalho são, para Renata, parte da história que está sendo registrada nas sete faixas.
“Todas essas pessoas que participaram comigo dos palcos, dos shows e da construção desses arranjos, dessas músicas, elas estão um pouquinho ali. São amigos, parceiros de caminhada”. Por isso, embora o disco leve seu nome e seja o primeiro trabalho autoral da carreira, ela prefere enxergá-lo como uma conquista coletiva. “Essa crença dessa turma toda que me acompanhou até aqui traz uma força para mim tão imensa que o disco se torna uma coisa coletiva, uma conquista coletiva”.
Entre as canções está uma dedicada à avó. Renata conta que as duas avós, hoje com 94 e 93 anos, continuam vivas e são referências de força para ela. “São mulheres que me ensinaram demais sobre me posicionar, sobre saber o que eu quero, sobre ser pessoa mesmo, que chega, fala e faz, que banca o que fala e faz”. A relação com as avós se mistura à própria maneira como Renata enxerga Salvador. Ela conta que aprendeu a circular pela cidade com uma delas e que a experiência ajudou a formar uma artista que se sente pertencente aos diferentes territórios e pessoas da capital.
“Eu conheço a cidade toda. Eu ando a cidade toda. Toda festa eu vou. Todo tipo de gente eu encontro. Eu me sinto realmente pertencente na vivência da cidade”. Essa intimidade com a cidade também aparece no próprio reggae que ela faz. O gênero, para Renata, não é apenas uma escolha estética ou profissional. É uma forma de viver. “Eu sou criada na Ilha de Itaparica. Era o dia todo, o dia todo, o dia todo escutando reggae. Então, tipo assim, é a minha vivência. Eu nem sei viver de outra forma.”
No palco da Casa Rosa, essa história chega finalmente ao público em forma de EP. Depois de 15 anos de trajetória artística e de mais de uma década construindo as canções, Renata apresenta Broto Semente como quem deixa de carregar apenas a semente e começa, enfim, a mostrar a árvore que vinha sendo cultivada. Enquanto a entrevista rolava, o Pelourinho se inseria no cenário. O sol se despedia e as colunas mais altas das igrejas se pintavam de ocre, enquanto batucadas e turistas provando suco de limão se misturavam aos sentidos.
De repente, brota das pedras castigadas do Pelourinho uma figura da qual a maioria das pessoas provavelmente se afastaria, diante daquele olhar automático de rejeição. Era uma senhora extremamente magra, de idade avançada, com uma camisa surrada do Vitória, a bandeira do Brasil como cachecol e uma peruca de tranças negras quase infantis. Sem dentes, mas com um sorriso que não escondia as salivas que escorriam pelo canto da boca. A imagem, porém, não combinava com a sabedoria de quem pediu licença com extrema delicadeza e educação, interrompeu a entrevista, olhou para Renata, segurou sua mão e falou:
“Meu nome é Adalgisa, amei você. Você merece ter todo o sucesso e tudo vai ficar bem. Nosso Senhor te abençoe e te dê sabedoria e inteligência. Não quero dinheiro, não quero nada seu. Eu só quero te mandar uma energia. Nunca vá pela conversa de ninguém, siga em frente e volte sempre, porque você vai fazer muito sucesso. Nós, mulheres, precisamos estar aqui, trabalhando e ajudando umas às outras. Axé!”. Uma maneira de terminar uma entrevista que só o Pelourinho, berço do reggae, poderia oferecer.
Reprodução texto, site: correio24horas.com.br
Fotos: Sora Maia










